Geralmente, quando estou sozinha num carro ou num ônibus, fico olhando para o lado de fora. Vejo o movimento da rua: das árvores, dos carros, mas, sobretudo, dos passantes. Invariavelmente, meu olhar cruza com outra pessoa que tem o mesmo hábito. Os dois observadores se entreolham. Às vezes, um fica com vergonha e desvia o olhar. Outras vezes, o outro fecha a cara como se o culpasse por invasão de privacidade. Mas tem dias, tem vezes, tem pessoas que olham de volta... e retribuem o meu sorriso. E há pessoas especiais que, quando o fazem, o sorriso brilha também nos olhos.
Isso acontecer é uma das coisas de que mais gosto num dia. É como se a pessoa validasse e valorasse a minha existência. É um olhar de "ei, você está aí, um ser humano no mundo!". E eu respondo, "ei, você também!".
Hoje, uma menina desconhecida de uns 16 anos percebeu a minha existência, e eu, a dela. A minha alegria foi imediata, como quem foi tocado por uma varinha de condão.
Noiva, lembrei-me de por que gosto tanto do ritual do casamento. Casamento é uma celebração em que esse momento mágico de felicidade genuína pelo outro -- pelo outro ser, pelo outro estar, por ambos se quererem bem -- se multiplica nos olhares dos noivos, dos pais, dos padrinhos, dos convidados...
E, por mais que noivas neuróticas, como eu, queiram cuidar de cada detalhe para que tudo saia perfeito, a perfeição mesma é imprevisível. Pode ou não acontecer na sinergia das pessoas, pois a perfeição é três vezes exigente. Requer que todos estejam lá, realmente estejam e sejam lá; que, altruisticamente, reconheçam a existência dos noivos naquele momento tão feliz para eles; e, por fim, que se permitam ser tomados por essa felicidade também.
É raro. Mas acontece muito em casamentos. E eu estava pensando que a neura desta noiva pelos possíveis micro-defeitos pode, na verdade, é impedir que algo tão macro aconteça. Ou pior, impedir que ela perceba.
É raro. Mas acontece muito em casamentos. E eu estava pensando que a neura desta noiva pelos possíveis micro-defeitos pode, na verdade, é impedir que algo tão macro aconteça. Ou pior, impedir que ela perceba.

















